A preocupação é em certo ponto viciante, porque lhe fornece
um senso de relevância no lugar em que você estiver, sem que esteja fazendo
algo.
É um aparato de entretenimento portátil: você entra no banho
ou deita na cama e divaga nos próprios excessos, a mente rodopia várias vezes
em torno do mesmo eixo, isso te dá uma série de emoções – raiva, coragem,
prazer de obtenção – surgem respostas heroicas para discussões fictícias,
desfechos exagerados para coisas simples; você se sente bem, sente algo
parecido com importância e poder, no entanto, fora desse seu domo de
simulações, todos os assuntos ainda estão pendentes.
Acontece que tanto tempo girando em volta do mesmo meio faz
com que a mente se perca; energia desperdiçada com o abstrato causa exaustão no
panorama real, e como a infecção que se alastra quando a imunidade está baixa,
o pensamento cansado se sujeita a ser vítima dos vigorosos desvairos —
terminando como a cobra que perece ao engolir a própria cauda.
Suas pendências nunca são findadas, porque mesmo tendo uma
ideia de resolução linear, você já começa o dia perdendo com pensamentos
desordenados; anarquizados pela energia mal direcionada da noite passada.
Isso faz com que você despeje café goela abaixo ou se apoie
em qualquer outra muleta de ânimo falso, só pra ter a vaga ilusão de que está
fazendo algo quando, na verdade, continua correndo em círculos pra acabar
levando o mesmo ciclo de postergação pra casa.
Ouça: nenhum excesso de preocupação pode tocar a realidade.
E ainda que a ponderação lhe conceda epifanias que sirvam ao planejamento, se
este não for contrabalanceado pela ação, é muito provável que você fique preso
num circuito exaustivo durante anos.
Assim, a saída para isso não poderia ser mais óbvia: resolva
suas preocupações!
Você não terá mais tempo para se preocupar uma vez que
estiver ocupado tomando as medidas necessárias. E não importa se você vai
começar o dia organizando a sua mesa ou tirando o lixo fora, toda ação, por
menor que seja, é uma linha reta que te liberta do circuito da inércia.
Ocupe-se — para que a aflição não ocupe você.
by Per Onere